sexta-feira, 13 de maio de 2011

Perigosas ligações (1/4)

edição 220 - Maio 2011 da Revista Mente & Cérebro

Choros, gritos, gestos descontrolados e outras manifestações dramáticas diante de uma frustração podem ser resultado de imperfeições cerebrais; pesquisadores buscam compreender comportamentos exagerados que destroem relacionamentos e minam a possibilidade de uma vida equilibrada
por Ophelia Austin-Small

© david williams/illustration works/corbis/latinstock

Minha prima S. me telefonou às 21h, chorando de forma descontrolada. Tudo começou com os cabelos, ela tinha certeza de estar ficando careca, apesar de não ter nenhum indício concreto dessa constatação. A remota possibilidade de sua suspeita se confirmar fazia com que ficasse desesperada. Também estava preocupada com sua vida profissional. Embora seu trabalho como auxiliar de ensino a “deixasse realizada e repleta de amor e alegria, infinitamente grata por essa oportunidade”, como costumava dizer, tinha certeza de que seu chefe tinha lhe lançado um olhar desagradável na hora do almoço, fazendo com que se sentisse muito ansiosa. Mais tarde, quando ligou para o namorado, pareceu-lhe que o rapaz a atendeu de forma seca. Com medo de que ele terminasse o relacionamento, fechou-se no banheiro do escritório e chorou durante quase uma hora, deixando de terminar seu trabalho e impedindo que os outros usassem o local. A atitude de seus colegas dividia-se entre preocupação e irritação.


Quem conhece S. há mais tempo, no entanto, não costuma se alarmar com essas crises, pois sabe que ela costuma “fazer drama”, com frequência reage aos acontecimentos cotidianos com emoção excessiva, inadequada, de forma teatral e inevitavelmente chamando a atenção – e incomodando – aqueles que estão por perto. Infelizmente ela não é uma exceção. Pessoas assim são conhecidas em seu círculo social por estragar um almoço informal, contando com detalhes uma longa história sobre a briga homérica com a namorada ou por abusar da atenção de colegas de trabalho, obcecadas com a ideia de que estão para perder o emprego ou precisam de ajuda para conseguir superar as dificuldades de seu dia. Os dramáticos são capazes de “adorar” alguém em um minuto e no momento seguinte odiá-lo com a mesma intensidade, sempre se expressando de maneira exagerada e supervalorizando acontecimentos sem maior relevância.


É comum que pessoas assim sejam extremamente volúveis, impulsivas e cultivem relacionamentos tumultuados, marcados por explosões, competição e agressividade. A tônica dessas relações parece ser os constantes altos e baixos, o que leva alguns psicólogos a chamar esse estilo de namoro ou casamento de “montanha-russa”, já que o casal tem grandes brigas e logo depois se entrega a calorosas reconciliações. É frequente que parceiros de pessoas tão impetuosas sejam vistos (e vejam a si mesmo) como “vítimas” da situação. Mas não é bem assim: não raro, os dois perfis tendem a se complementar, o que resulta em parcerias destrutivas. E essas duplas não se mantêm por acaso; os envolvidos apresentam “características complementares” que terminam por perpetuar a situação. Indivíduos com transtorno de personalidade histriônica, segundo classificação psiquiátrica, são extremamente emotivos e buscam a atenção com uma necessidade constante e excessiva de aprovação. Em relações de amizade ou em casos de convivência por contingência (na escola ou no trabalho, por exemplo) esses “pares complementares” também costumam se formar.


Morar ou trabalhar com gente com essas características costuma ser uma experiência cansativa e confusa. No ambiente profissional, por exemplo, a labilidade tão pronunciada de humor não só abala a própria produtividade, mas também a dos que estão por perto e, não raro, prejudica indiretamente toda a equipe. Invariavelmente, aqueles que convivem em casa com alguém exageradamente dramático são bombardeados por acusações, seguidas de tentativas nada discretas de desculpas, numa alternância de estados emocionais que podem variar, em poucas horas, da irritação e agressividade à sensação intensa de culpa, seguida de desalento e profunda exaustão, próxima à apatia. Alguns dramáticos se voltam de forma violenta contra quem está por perto, enquanto outros ameaçam cometer suicídio e chegam a ferir-se quando estão muito exaltados. Em geral, o comportamento radical está associado à depressão ou à ansiedade. O que nem todos sabem é que por trás dessas atitudes pode haver um distúrbio, em grande parte atribuído ao sofrimento enfrentado nos primeiros anos de vida.

Ophelia Austin-Small é jornalista científica.

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